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O queniano Cyrus Kabiru ficou famoso mundialmente por
seus óculos produzidos com materiais achados na rua

São facilmente perceptíveis as dificuldades enfrentadas neste novo milênio, algumas já previstas no início do século XX. Problemas novos e sérios convivem com antigos, como a persistência da pobreza e das necessidades essenciais não satisfeitas – ameaças cada vez mais graves ao ambiente e à sustentabilidade da vida econômica e humana. Para combatê-los, é preciso considerar a liberdade individual como um comprometimento social (Sen: 2010). A noção de liberdade – que inclui oportunidades econômicas, liberdades políticas, facilidades sociais, garantias de transparência e segurança protetora, assim como acesso ao conforto na forma estabelecida pelo desejo (tão bem manipulado pelas ferramentas de marketing) – traz uma cultura de desconexão com o todo.

Com o processo de globalização, a questão da democracia como modelo de liberdade relaciona-se de perto com um problema cultural merecedor de atenção. Trata-se do poder esmagador da cultura e do estilo de vida ocidentais para solapar modos de vida e costumes sociais tradicionais. Uma ameaça inescapável, sendo difícil resistir às forças do intercâmbio econômico e da divisão do trabalho em um mundo competitivo impulsionado pela revolução tecnológica.

O sociólogo britânico Anthony Giddens tem dado contribuições significativas à teoria social, explorando as interações entre estruturas sociais e a atividade humana. A sociedade produtiva, após a revolução industrial e influenciada por Marx, deveria ter se tornado mais estável e ordenada. No entanto, o mundo de hoje parece estar em descontrole. Algumas situações consideradas de risco, decorrentes da mudança do clima global e resultantes da intervenção humana ao ambiente, não são de todo apenas fenômenos naturais e estão inextricavelmente ligados à globalização. Para minimizar estes riscos é necessário uma visão integrada (ou integradora) da relação dinâmica entre as partes e o todo, onde o que afeta também é afetado em quase todos os aspectos. “O que vai, volta”.

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Bijouterias e acessórios feitos de “sea glass”, vidro lapidado produzido espontaneamente na natureza

No funcionamento do mundo social, os indivíduos atribuem determinado significado ao seu ambiente e agem de acordo com essa atribuição. As interpretações individuais baseiam-se num conjunto de pressupostos fornecidos pela história e pela tradição. O termo em inglês tradition tem origem no latim tradere, que significa transmitir, ou confiar algo à guarda de alguém. Tradere foi originalmente usado no contexto do direito romano, em que se referia às leis da herança. Considerava-se que uma propriedade passava de uma geração a outra em confiança. O herdeiro tinha obrigação de protegê-la e promovê-la (Giddens, 2011:49).

Boris Bally

Algumas tradições perdidas podem fazer muita falta, causando angústia e um sentimento de perda. É comum permanecer certa nostalgia por objetos especializados e elegantes, como uma velha máquina a vapor ou um relógio antigo, mas em geral as máquinas obsoletas e descartadas não são particularmente desejadas. Há tempos convivemos com objetos produzidos para atender a uma função ou necessidade. Segundo Giddens, a idéia de que as tradições são impermeáveis à mudança é um mito. Elas podem ser inventadas e reinventadas, ainda que algumas, como as associadas às grandes religiões, durem centenas de anos.

Nossa sociedade vive o fim da tradição e poderá viver o fim da natureza, ou certamente passar por uma grande transformação. Tradições sucumbem à modernidade, são esvaziadas de seu conteúdo e, comercializadas, tornam-se objetos de herança ou kitsch. A nova economia em rede transformou profundamente as relações sociais entre o capital e o trabalho, como analisa Manuel Castells. O capital é global, ao passo que o trabalho é local. As grandes redes empresariais difundem o poder de forma hierárquica, em um processo controlado e linear. Mas nas redes e inter-relações ecológicas, o processo é não-linear e envolve múltiplos anéis de realimentação, sendo os resultados, muitas vezes, imprevisíveis. Num ecossistema, nenhum ser é excluído da rede. Todas as espécies, até mesmo as menores dentre as bactérias, contribuem para a sustentabilidade do todo. Portanto, há uma diferença crucial entre as redes ecológicas da natureza e as redes da sociedade atual.

Uma das grandes vantagens de reconhecer a complexidade do mundo é compreender que todas as partes estão interligadas. As ações de cada um juntam-se às ações de outros para gerar movimentos que estão além da capacidade individual de seus componentes. A interação entre as estruturas sociais e a atividade humana tem caráter cíclico: “os tempos mudam, e muda com eles o significado das coisas que parecem fixas.” (Cardoso, 2012)

Assim pode ser verificada a noção de ciclo no complexo sistema de hoje, que conceitua o tema principal deste artigo, o Upcycling. Cunhado pelo arquiteto William McDonaugh e o químico Michael Braungart, o termo define o processo de conversão de um nutriente industrial (material) em algo de valor semelhante ou maior, em sua segunda vida. Como registrado no livro “Do Berço ao Berço: refazendo o caminho para fazer coisas”, o conceito é contrário ao da “obsolescência programada”. Ou seja, as coisas devem ser projetadas de forma a prever sua reintrodução no ciclo, seja por reciclagem, por reaproveitamento, ou utilizadas como matéria-prima para serem transformadas em outros produtos, não perdendo a qualidade quando recicladas e ainda reforçando os conceitos dos 3 R’s: reduzir, reutilizar e reciclar.

Pode-se dizer que a obsolescência programada é filha da sociedade de consumo, mais especificamente do chamado consumismo. Aqui já cabe uma distinção feita por Bauman entre consumo e “consumismo”. Para o autor, o consumo é um elemento inseparável da própria sobrevivência biológica, já a “revolução consumista” surge mais recentemente: “Aparentemente o consumo é algo banal, até mesmo trivial. É uma atividade que fazemos todos os dias. Se reduzido à forma arquetípica do ciclo metabólico de ingestão, digestão e excreção, o consumo é uma condição, e um aspecto, permanente e irremovível, sem limites temporais ou históricos; um elemento inseparável da sobrevivência biológica que nós humanos compartilhamos com todos os outros organismos vivos. […] Já o consumismo, em aguda oposição às formas de vida precedentes, associa a felicidade não tanto à satisfação de necessidades (como suas “versões oficiais” tendem a deixar implícito), mas a um volume e uma intensidade de desejo sempre crescentes, o que por sua vez implica o uso imediato e a rápida substituição dos objetos destinados a satisfazê-la.”

shopping-cart-bench-incubate-Etienne ReijndersConsumo x consumismo: Carrinho de supermercado “upcycled”, por Etienne Reijnders. Foto: Lindholm Interior Concepts

 

Consideremos os bens produzidos para serem consumidos, não só para a satisfação de necessidades, mas também para atender aos desejos das pessoas. Alguns produtos são compostos por matérias-primas que podem ser biodegradáveis, ou seja, transformadas no ciclo biológico; outros por materiais tecnológicos que estão no ciclo técnico. Produtos de fibras celulósicas, como papel e papelão, são essencialmente compostáveis, biodegradáveis, recicláveis. São produtos a serem usados para vários fins. Ao receberem qualquer impressão, passam a conter resíduos de carbono e metais pesados provenientes das mais diversas composições de tintas e acabamentos gráficos. As modernas e atrativas embalagens transformam a matéria-prima do papel em um complexo amálgama de polpa de madeira, polímeros, vernizes, tintas, metais pesados, halogenados e hidrocarbonetos. Caso seja incinerado produzirá dioxinas, algumas destas muito perigosa e cancerígenas.

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Luminárias gambiológicas utilizando LED’s em lâmpada queimada, lata antiga e fitas cassete: obsolescência iluminada.
Por Lucas Mafra, Coletivo Gambiologia e www.recycled-market.com

Ao serem reciclados, produtos de papel e fibras celulósicas (aparas) geram resíduos inservíveis, como polietilenos (plásticos), alumínio e colas. Além disso, o ciclo de aproveitamento das fibras celulósicas é curto: elas podem ser recicladas de cinco a sete vezes, sempre perdendo resistência, sendo que a cada novo ciclo de reciclagem são acrescentadas fibras virgens ou longas. Considerando que aparas pós-consumo contêm impressões, a reciclagem será cada vez menos nobre e as fibras serão aproveitadas para outros fins, por exemplo, servindo como miolo de papelão ou papelões prensados (aqueles cinzas). Ou seja, um processo complexo que envolve o uso de químicos para branqueamento, gerando necessidade de adaptações eco-eficientes ao processo produtivo.

<theragandbonemancouk2 The Rag and Bone Man – www.theragandboneman.co.uk[/caption]p style=”text-align: left;”>O mesmo acontece com plásticos que são misturados a outros, produzindo materiais híbridos com qualidade inferior. Da mesma forma acontece com metal, alumínio e vidro, pois quase sempre são acrescentadas matérias-primas virgens para melhoria de qualidade, ou até mesmo para viabilização do processo. Toxinas, entre outros componentes químicos presentes nos produtos de polietileno, são danosos à saúde. Desta forma, uma camiseta produzida com fibras PET não irá para o solo com segurança, ao contrário das 100% algodão, sendo este mais um novo dilema da reciclagem.

Reciclar muitas vezes não é um processo vantajoso. Produtos descartados como resíduos são reintroduzidos como matéria-prima secundária e provenientes de um intrincado processo em cadeia, que depende de inúmeros elos (frágeis) no complexo sistema da coleta seletiva. Desta forma, a reciclagem não pode nunca ser considerada um ciclo fechado, mas um “downcycling”, pois a qualidade do material é sempre reduzida. Entretanto, o conceito de eco-eficiência aplicado aos modernos modelos de manufatura deve ser considerado positivo quando o ciclo tecnológico e os produtos forem desenhados para retornarem ao ciclo técnico, numa forma de metabolismo industrial.

Henry Ford inovou os sistemas produtivos da indústria do automóvel, no final do século XIX, introduzindo conceitos de produção que reduziam o tempo de preparação das máquinas e os custos e aumentavam a produtividade com o ciclo contínuo de projeto em uma seqüência lógica, além da produção de todos os componentes dentro da própria empresa. De forma simplificada e inovadora à época, Ford praticou a primeira forma de upcycling – uma nova concepção de design industrial que deve reduzir consideravelmente a emissão de resíduos tóxicos no ar, no solo e na água; medir a prosperidade na relação de menor atividade; cumprir com as inúmeras e complexas legislações para manter as pessoas e os sistemas naturais livres de envenenamento; produzir menos materiais perigosos e quantidades menores de resíduos não utilizáveis; aterrar o mínimo de materiais, sabendo que estes nunca mais poderão ser recuperados.

Nesta concepção, o design de produtos passa a ser concebido em todas as suas partes e condizente com o conceito de “nutriente tecnológico”, ou seja, o produto para o serviço, a geração de resíduos como recursos. Pensar em desenvolvimento sustentável significa reaprender com a natureza, imitando o metabolismo natural, onde não existe resíduo, pois o resíduo de um é alimento para o outro. Eliminar o conceito de “lixo” significa desenhar coisas – produtos, embalagens e sistemas – desde o mais inicial entendimento de que resíduo pode ser re-significado como recurso, na valorização de todos os componentes, matérias-primas, nutrientes, determinando o desenho e buscando a forma, não somente a função ou aparência. Porém, não é esta a definição mais usual do termo upcycling, entre as inúmeras “propostas de design ecologicamente correto”. O que é divulgado são aplicações de materiais recicláveis em forma de artesanato, que têm uma vida útil muito curta e não consideram todo o ciclo de vida do produto até o seu descarte. São produtos que tratam apenas da reutilização de materiais, usando partes de produtos, comumente embalagens, muitas vezes mantendo a mesma configuração e ainda deixando aparentes as marcas, ou logotipos, o que invariavelmente será motivo de polêmicas.

Resta-nos planejar qual a duração do ciclo se está propondo manter, seja pensando na vida humana individual com duração máxima de 100 anos, na dos nossos descendentes, ou até mesmo no futuro de um planeta que serve de morada à humanidade há milênios, acolhendo e suprindo a vida.

DSC_0294Restos de isqueiros promovidos a pendrive, antena wi-fi e conexão bluetooth
por Saulo Policarpo / Lucas Mafra / Coletivo Gambiologia

REFERÊNCIAS:

Braungart, M.; McDonough, W. Cradle to Cradle: remaking the way we make things. London: Vintage Books, 2009.

Bauman, Z. Vida para o Consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

_______________________. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Trad. José Gradel. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Capra, F. As conexões ocultas – ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002.

Cardoso, R. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Giddens, A. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2011.

NBR ISO 14040: Gestão Ambiental: Avaliação do Ciclo de Vida – Princípios e Estrutura. Rio de Janeiro: ABNT, 2001.

Sen, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Simonetto, E. O.; Borestein, D. A Decision Support System for the Operational Planning of Solid Waste Collection. Waste Management, 27 (10), p. 1286-1297, 2007.

United Nations Environment Program (UNEP). Life cycle management: a business guide to sustainability. Genebra: UNEP, 2007.

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