gambiomestre

O sol vem de mansinho avisar que o dia chegou. O ar ainda está fresco e úmido da madrugada. J estica as pernas. Esfrega os olhos, olha para o mar que aparece em meio a uma estreita fresta da mata. Seria um fantástico dia de praia, mas não vai rolar. Tem novato chegando na área, e o velho gosta que o gambimestre esteja por perto nessas horas.

J enrola a colcha em volta do travesseiro e guarda na estante feita de tábuas apoiadas em esqueletos de gabinetes de computadores. Veste bermuda cargo azul, regata amarela estampada e chinelos de dedo. Ele atravessa em silêncio o dormitório para não acordar ninguém. Os três beliches estão ocupados. Aqui e ali, o cheiro de álcool sugere que o luau foi longe na noite passada. Mais tarde, vai pôr a molecada para suar nos pedais geradores.

Faz uma rápida pausa na casinha do banheiro seco, depois usa o tanque para lavar as mãos e o rosto. Besunta braços, pernas e cintura com o óleo de citronela disponível no pote de plástico na mesinha. A dengue está na área, outra vez. Em seguida, sobe o caminho de terra batida até o salão comum – um quiosque alto e largo, voltado para o mar. O ambiente cheira a pão quente e café recente. O velho está à mesa. Ele tem cabelos brancos e barba espessa. A pele é enrugada, queimada de sol. Veste uma bata clara e calça de algodão cru.

Que belo dia, não é, Jota? – O velho, olhando para o horizonte.

Promete. Que horas chega o novo ráquer?

Sempre com pressa, não?

Cê me conhece. Muita coisa para deixar pronta hoje.

Ele vem no caminhão. Chega no meio da tarde, se não houver contratempos. Deve vir desequipado.

OK. Preparei ontem à noite um tablete e um telinha. Só o sistema limpo, não instalei nada ainda. Achei que ele ia gostar de passar alguns dias explorando nossas redes.

E assim você aproveita para testá-lo também, não?

J responde com um raro sorriso e pede licença. Reparte com as mãos um pedaço do pão integral, cobre-o com uma fatia de queijo meia-cura e se serve de café em uma caneca de metal. Sai andando, acelerado. Depois de matar o pão e o café, pendura a caneca no mosquetão preso a um passante de cinto na lateral da bermuda. Pára à beira da mata, bate palmas três vezes e leva a mão direita aos lábios para soltar um assovio alto e agudo. Pega no batente da porteira um facão embainhado, e continua.

O solo está úmido. J desce a trilha até o riacho. Segue por alguns metros até a turbina, que gira em ritmo constante. É um dispositivo relativamente pequeno, feito com uma roda de bicicleta e ímãs extraídos de discos rígidos descartados. Aparentemente, a chuva intensa das últimas semanas não deixou sequelas na instalação. J atravessa o curso d’água e continua seguindo pelo outro lado. Logo, chega ao local onde está instalado o fim do cano que desce trezentos metros de morro para chegar a outro gerador elétrico, este industrial. Ali também a estrutura parece intacta. Ele toma o caminho que sobe para o outro lado do vale.

Depois de muitas voltas, chega à cabana de bambu, quase no topo do morro. Senta-se em um banco e saca seu telinha. Identifica-se com a senha do dia e um comando de voz que é praticamente um resmungo. Navega um pouco pelo sistema. Dezoito pontos de geração estão ativos agora. Outros oito não mandam sinal nenhum, como esperado. Estes são em sua maioria pontos complementares: pedais, retorno de tração das roldanas e outros. No geral, tudo está bem. Em continuando com os padrões de consumo atuais, a propriedade tem autonomia para três semanas de eletricidade. Nada mal, levando em conta que têm transformado em média cento e trinta por cento da demanda diária. Ou seja, o tempo de autonomia só tende a crescer.

J aprendeu com o velho que eletricidade geralmente não é “gerada”. Quase sempre é um processo de transformação: de energia mecânica em elétrica ou de potencial químico em energia elétrica, ou então transformação de formas diversas a partir da radiação solar. Ele olha para cima e agradece a Oxalá e Apolo pela dádiva, e também a Prometeu, Mercúrio e Exu pelo acesso a ela.

As cigarras cantam, sugerindo que o sol vai firmar durante o dia. É bom sinal para a primeira noite de lua cheia. Ele se levanta. Uma das antenas do lado de fora da casa está torta. Deve ter sido o forte vento da noite passada. Saca do bolso a chave de fenda, encaixa uma ponta de chave estrela e aperta os parafusos até que a antena esteja novamente alinhada.

J devolve o facão à porteira. Passa no salão comum – que já tem oito pessoas conversando alegremente e comendo – para pegar a caixa de sinc e seu boné vermelho. Já saindo da propriedade, desbloqueia o telinha. Aciona o programa para abrir a porta da garagem. Pega uma das bicicletas e percorre mais dois quilômetros pela estrada de terra. O entorno de mata fechada começa a dar lugar a pequenos sítios onde se criam bananas, jussara e mandioca. Um pouco mais adiante, casas simples e alguns estabelecimentos comerciais. J cumprimenta com um aceno todas as pessoas que encontra pelo caminho. Ocasionalmente, chama os interlocutores pelo time de futebol pelo qual torcem.

Chegando ao asfalto, atravessa a estrada e espera no ponto. Em menos de cinco minutos, o ônibus amarelo chega, pára e abre a porta dianteira. O motorista parece verificar alguma coisa em seu telinha, pressiona algumas teclas. Para os passageiros, ele pode estar enviando uma mensagem à esposa ou à amante. Alguns fazem cara feia, mas ninguém reclama. Após pouco mais de um minuto, ouve-se um bip curto. O motorista olha para o horizonte, fecha as portas do ônibus e segue seu rumo. J tira do bolso um par de fones sem fio e os encaixa nos ouvidos. Monta na bicicleta e ruma de volta à propriedade. Assim que tem certeza de que está sozinho, aperta o botão do fone e fala com o telinha:

Quanto veio hoje?

Uma voz metálica (mais uma opção estética do que limitação tecnológica) lhe responde após alguns segundos:

Vinte e oito megabytes.

J está esperando há alguns dias que uma prima responda a seu e-mail perguntando por notícias da família. E sabe também que o velho aguarda informações sobre o avanço dos ráqueres de cristo no litoral norte. Pelos últimos relatos que tiveram, algumas igrejas neopentecostais têm se esforçado em identificar e converter jovens que costumavam prestar serviços de captura, monitoramento e compilação de dados para organizações criminosas. A esses profissionais é oferecida a oportunidade de trabalhar “para a obra do senhor” em troca do perdão divino e, em alguns casos, judicial.

Existem cidades em que pastores obtêm informação suficiente para chantagear toda a classe política local. O velho falou uma vez que “dados bem escolhidos acusam a qualquer um”. J sabe que o velho trabalhou por décadas na indústria de segurança da informação. E já percebeu que ele está disposto a agir. Tempos interessantes se aproximam, pensa o gambimestre enquanto abre a porta e retorna para seu mundo.

(parte II de IV » continua na próxima edição)

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