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Parece policial noir, e aliás daria um dos bons. No dia 21 de março de 1947, a polícia de Nova York foi chamada por vizinhos de um prédio na esquina da Quinta Avenida com a 128th Street, no Harlem, em Manhattan. Eles acusavam o mau cheiro que emanava do endereço, mais precisamente do apartamento onde moravam os irmãos Homer Lusk Collyer, que tinha então 68 anos, e Langley Wakeman Collyer, de 62. Eram figuras reclusas, consideradas excêntricas por quem morava ali por perto, e justamente por isso acabavam por despertar a curiosidade da vizinhança.

Quando chegou ao local e tentou entrar à força no apartamento, já que nenhum outro tipo de contato ou abordagem era possível, a polícia descobriu que não seria uma empreitada fácil. A porta da frente estava barrada por uma muralha de papéis, catálogos e entulho genérico. As janelas do porão estavam quebradas, mas protegidas por grades. A solução encontrada foi arrombar e entrar pela janela de um quarto no segundo andar. O cenário dentro do cômodo se comparava ao do andar de baixo: uma enormidade de caixas, papéis, objetos diversos, a estrutura de um carrinho de bebê, vários guarda-chuvas amarrados em um molho e todo tipo de material que se possa imaginar. O primeiro policial a entrar levou duas horas para engatinhar através do entulho e chegar ao corpo de Homer, encontrado sentado em uma cadeira, vestindo um roupão de banho azul e branco.

A perícia médica constatou que ele provavelmente morreu vítima de uma combinação de desnutrição, desidratação e complicações cardíacas, há não mais que dez horas, o que significava que o mau cheiro que exalava do apartamento não podia ser dele. Polícia e bombeiros seguiram tirando o entulho do local, na esperança de também encontrar Langley no apartamento. Cerca de 600 curiosos acompanhavam da rua os trabalhos. Dois dias depois, já haviam sido retiradas mais de 19 toneladas de lixo, papéis e tralha que os irmãos Collyer acumulavam compulsivamente. E nem sinal de Langley.

Nove dias depois, quando equipes ainda retiravam coisas do apartamento – já eram contabilizadas, então, cerca de 84 toneladas de entulho – rumores apontavam que o mais novo dos Collyer tinha sido visto pelos lados de Atlantic City. Teve início uma busca por Langley que cobriu nove diferentes Estados. E nada. No dia 8 de maio daquele ano, finalmente ele foi encontrado, no próprio apartamento, a poucos metros de distância de onde estava o cadáver de Homer, soterrado por uma pilha de catálogos telefônicos, livros e outros papéis. Seu corpo em decomposição havia sido parcialmente comido por ratos. A demora para se chegar até ele deveu-se, fundamentalmente, à dificuldade de remoção de tanto entulho.

Ficou constatado que ele havia morrido antes de Homer, e era dele, portanto, o mau cheiro que exalava da casa. Langley se esgueirava por um corredor entre as toneladas de objetos para levar água e comida ao seu irmão mais velho, que tinha problemas de locomoção, causados pelo reumatismo e porque havia perdido a visão em 1933 – vivia, portanto, praticamente inválido. O Collyer mais novo foi vítima de uma armadilha que ele mesmo preparou. Ao passar por ela, causou o desabamento da tralha sobre si e morreu esmagado. As armadilhas – havia várias pelo apartamento – foram feitas com o intuito de impedir a entrada de estranhos.

Foram retiradas ao todo da casa dos Collyer aproximadamente 140 toneladas de coisas indistintas que eles haviam acumulado ao longo dos anos: armas, 14 pianos, uma máquina de raio-X, a carcaça de um Ford T Model, muitos papéis, incluindo catálogos de telefone de datas vencidas, cerca de 25 mil livros e pilhas de jornais, mesas, cadeiras, caixas, órgãos humanos conservados em frascos, berços, violinos, acordeons e outros instrumentos musicais, garrafas de vidro, bolas de boliche, bicicletas velhas, gramofones, discos, camas, sofás, penteadeiras, relógios, quadros e tantos quantos mais objetos se possa imaginar, tudo à maneira de lixo compactado, além de oito gatos vivos.

O caso dos irmãos Collyer, pouco conhecido no Brasil, é referencial nos Estados Unidos do que se denominou compulsive hoarding – a acumulação obsessiva de qualquer coisa, não raro sem qualquer foco. O termo “Collyer Mansion” se tornou um jargão entre os bombeiros de Nova York e é usado até hoje. Durante décadas, Langley e Homer juntaram e mantiveram objetos em seu apartamento sem um propósito aparente. Progressivamente foram também se afastando do convívio social, transformando o próprio lar numa espécie de fortaleza inexpugnável, com direito às armadilhas. Por falta de pagamento, o serviço telefônico dos Collyer foi cortado em 1917, a água, a eletricidade e o gás, em 1928, o que significa que eles passaram os últimos 19 anos de suas vidas no improviso – um lampião a querosene para iluminar, uma engenhoca criada por Langley para gerar alguma energia e a água conseguida em um posto nas proximidades. Também a comida era obtida graças às andanças mendicantes do irmão mais novo pela cidade.

Poderia haver alguma justificativa ou moral da história para o caso que registra o comportamento dos Collyer, mas não, trata-se apenas de uma degeneração patológica do ato tão comum a qualquer pessoa de colecionar. O caso dos irmãos Collyer reverberou tanto, a propósito, que muitos dos itens que acumularam – incluindo a cadeira em que Homer foi achado morto – acabaram reunidos em uma exposição no Hubert’s Dime Museum, em Nova York, no início dos anos 1950, e seguiram em exibição pública por um bom tempo, numa excêntrica espécie de metacoleção de coleções.

Além de exposição, o episódio também gerou outros produtos culturais, como livros (é o caso de “My Brother’s Keeper”, de Marcia Davenport, de 1954, ou “Ghosty Men”, de Franz Lidz, que veio à luz em 1991) e filmes (o curta “Collyer Brother Syndrome”, de David Willing e Jessica Birnbaum, lançado em 2003 e que pode ser visto no YouTube, e o longa “Unstrung Heroes”, de 1995, dirigido por Diane Keaton) – o que atesta a vocação do bizarro episódio para o universo da ficção.

Daniel Barbosa

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